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08 de Junho de 2015 às 12h09

Financiamento coletivo faz projetos incríveis saírem do papel

Uma jovem baterista conseguiu gravar seu primeiro CD solo. Um grupo de teatro conseguiu dinheiro para realizar seu novo espetáculo de rua. Um instituto que presta atendimento gratuito a pessoas com necessidades especiais conseguiu comprar produtos para garantir a continuidade de seu trabalho. Uma estudante de nutrição conseguiu financiar a produção de um guia alimentar para ajudar crianças a comerem melhor.

Todos esses sonhos se concretizaram por conta do crowdfunding, termo que no Brasil é traduzido como financiamento coletivo. Os projetos foram enviados para diferentes sites que, apesar de terem algumas diferenças em seus métodos, possuem um objetivo em comum: conseguir doações de internautas para viabilizar projetos que sem isso provavelmente não sairiam do papel.

A ideia é conhecida nos Estados Unidos desde 2008, ano de criação do site Kickstarter, que acaba de atingir a marca de 1 bilhão de dólares arrecadados desde seu lançamento. Ele inspirou um grupo formado por dois administradores, um programador, um designer e um jornalista a colocarem no ar, em janeiro de 2011, a primeira plataforma brasileira de financiamento coletivo: o Catarse.

Apesar de não ser novidade, o fato é que o conceito cresce ano após ano. Os números não mentem. Em 2011, o Catarse possibilitou o financiamento de 142 projetos e arrecadou R$ 1,5 milhão. No período seguinte, esse dado passou para 278 e R$ 4 milhões. Em 2013, foram 747 projetos viabilizados e R$ 7,6 milhões doados. Neste ano, contabilizando os resultados da página somente até o mês de setembro, 393 projetos já alcançaram seu objetivo, totalizando nada menos do que R$ 8,4 milhões pagos por apoiadores.

“Essa nova alternativa ocupou uma enorme falha dos sistemas tradicionais de financiamento cultural. Uma grande demanda reprimida por falta de financiamento encontrou menos burocracia, risco quase zero, mais agilidade e independência do financiador. Muitas pessoas estão conseguindo tirar ideias do papel com a força da mobilização das suas próprias redes e da sociedade civil”, comenta Felipe Caruso, coordenador de comunicação do Catarse.

A CEO da plataforma Kickante, lançada em outubro de 2011, também vê com otimismo o momento atual e o futuro do crowdfunding no país. “O movimento está crescendo e se tornando mais conhecido. O brasileiro está percebendo que tem uma ferramenta rápida e democrática de arrecadação que supre o que falta em outros setores. É algo que veio para ficar, pois traduziu para o mundo digital o que já se fazia online: arrecadar fundos para projetos incríveis”, afirma Candice Pascoal.

Dando uma dimensão do poder e do alcance desses sites, a executiva cita o projeto Torcida Médicos Sem Fronteiras, que atingiu o maior número de doações até hoje no Kickante. A ONG internacional que oferece ajuda médica a populações em situação de emergência recebeu o valor de R$ 143.263,00, recurso proveniente de 2.637 pessoas.

Entenda como funciona

Plataformas como Catarse e Kickante recebem uma média de 300 a 400 projetos por mês, mas somente cerca de 100 chegam a ser publicados. Isso porque há alguns pontos importantes que precisam ser seguidos. Apesar de terem como princípio básico não julgar e escolher o projeto que merece ser ajudado – já que essa decisão deve ser do público final – existe a necessidade de se verificar, por exemplo, sua autenticidade.

O coordenador de comunicação do Catarse explica os critérios utilizados por eles: “o projeto tem que ser criativo e precisa ter começo, meio e fim bem definidos. Deve conter obrigatoriamente um vídeo de campanha, recompensas para os apoiadores, descrição transparente e uma meta financeira realista”. Além disso, o site também não aceita projetos de interesse exclusivamente pessoal, como fazer uma viagem de férias ou pagar contas atrasadas.

As recompensas são um denominador comum nas campanhas de crowdfunding. Todos que colaboram têm direito a algum tipo de reconhecimento conforme a quantia doada. Pode ser, por exemplo, apenas um agradecimento nas mídias sociais. Ou algo maior, como ingressos ilimitados para shows do artista ajudado durante um ano. No caso da ONG Médicos Sem Fronteiras, a opção que utilizaram foi dar uma capa de celular com logo da organização para quem contribuísse com R$ 49.

Outro ponto chave é a definição do tipo de campanha, que geralmente segue o esquema “tudo ou nada”. Ou seja: se o objetivo for alcançado no tempo necessário – normalmente 45 dias –, o dono do projeto fica com todo o dinheiro, com exceção de uma porcentagem que vai para a plataforma (13% no Catarse e 12% no Kickante). Por outro lado, se o projeto não for bem-sucedido, as contribuições são devolvidas para os apoiadores e o dono da ideia não recebe nada.

Apesar de existirem também campanhas “flexíveis”, em que o dinheiro obtido é repassado ao idealizador independentemente do alcance da meta, as campanhas “tudo ou nada” passam mais credibilidade aos internautas. Nelas, o doador sabe exatamente o que será feito com o valor captado e tem a certeza de que sem uma quantia específica não será viável realizar aquele sonho. Esse sistema também acaba motivando mais o responsável pelo projeto a engajar sua rede para chegar ao valor almejado.

Foco no social

Seguindo o modelo de crowdfundind, porém sem cobrar nenhuma porcentagem do valor arrecadado pelos projetos, surgiram também plataformas de caráter puramente social, como a Juntos com Vc. “Somos uma ONG preocupada com o aumento da cultura de doação no Brasil e que oferece uma ferramenta de captação de recursos exclusivamente para projetos sociais, sem nenhum custo ou taxa”, explica o gerente geral e co-fundador Ariel Tomaspolski.

A equipe do site faz uma curadoria dos projetos para checar se a organização ou o empreendedor social é idôneo e verificar se o impacto do projeto será benéfico para a sociedade. Uma ideia tão boa que rendeu inclusive uma premiação da Google em maio deste ano, que escolheu a ONG como uma das dez melhores do Brasil a utilizarem a tecnologia a favor do impacto social

“Nosso gráfico de doações só aumenta. As pessoas gostam de apoiar de forma colaborativa uma boa ideia, ainda mais se ela trouxer melhorias para a sociedade”, comenta.

EXEMPLOS DE SUCESSO

Conheça histórias de quem conseguiu realizar seus sonhos com a ajuda do crowdfunding.

Um disco no forno

O amor de Nina Pará pela bateria começou quatro anos após ela iniciar os estudos de guitarra. “Fui em um show de um guitarrista de quem sou muito fã e quando a apresentação terminou percebi que tinha ficado vidrada só no baterista. Refleti uns três dias sobre isso e troquei de instrumento”. A decisão foi certeira – ela seguiu em frente na música. Desde então, já passou por várias bandas e dá aula em seu estúdio na Vila Mariana.

Mesmo com essas conquistas, o projeto de gravar um CD solo ainda parecia uma ideia distante. “É muito difícil viver de música no Brasil, e quase impossível ter recursos do próprio bolso para gravar um álbum”, conta. Diante dessa encruzilhada resolveu arriscar e pedir ajuda de internautas. Valeu a pena: sua meta de R$ 6.500 foi superada e ela conseguiu R$ 8.160 para arcar com os custos previstos, entre gravação, mixagem, pagamento dos músicos etc.

“É uma sensação de muita felicidade, aceitação e credibilidade. As pessoas acreditam no seu trabalho e em você, mesmo sem nem te conhecerem ao vivo. Mas junto com isso vem o sentimento de responsabilidade, afinal não quero deixar as pessoas que contribuíram esperando muito pelo disco”, comenta.

Nina Pará utilizou a plataforma Kickante e sua campanha foi finalizada em 4 de agosto. Seu disco está programado para ser lançado até o mês de novembro.

Saúde no prato

O jogo é simples e intuitivo: cada peça representa um alimento, cada grupo alimentar tem uma cor e o objetivo é preencher todos os espaços do tabuleiro para conquistar uma alimentação balanceada. Com essa ideia, a estudante de nutrição Gabriela Bizari e o estudante de design Adriano Furtado criaram o primeiro guia alimentar interativo do Brasil para crianças.

O projeto virou realidade graças ao Catarse. “Atingimos 115% da meta, o que representou R$ 26.200,00. Foi uma sensação indescritível! Recebemos a notícia com muita felicidade por saber que conseguiríamos tirar o projeto do papel e começar a colocar a mão na massa”, conta Gabriela.

As contribuições de 196 apoiadores possibilitaram a produção de duas mil unidades do quebra-cabeça, que já são estão sendo vendidas no site oficial do projeto.

Por mais sorrisos

Criado em 2007, o Instituto Sorrir para a Vida nasceu com a missão de oferecer tratamentos odontológicos para pacientes de baixa renda que estão passando por quimioterapia ou radioterapia devido a algum tipo de câncer. Desde 2013, atende também pessoas com deficiências, doenças sistêmicas ou infectocontagiosas e alterações comportamentais.

Para realizar a compra de produtos odontológicos essenciais para prosseguir com os atendimentos, a organização decidiu recorrer ao site Juntos com Vc. Com a campanha no ar, foi feito um grande esforço para divulgá-la: envolveram toda a equipe interna, repercutiram nas redes sociais, criaram um banner para o site, enviaram SMS para seus contatos e estabeleceram parcerias com rádios.

Tudo valeu apena, afinal conseguiram R$ 16.153,65. “É um esforço grande, mas que acaba estreitando laços e trazendo novas pessoas para a causa”, lembra a coordenadora institucional Danielle Vanzella.

indicas.com.br

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